Obras inspiradas em pessoas reais

Quadro onde uma mão segura um girassol representando o sol e ilumina uma pessoa embaixo.

“Acreditava que tratamento e psiquiatra eram coisas de doido”

Costumo dizer que sentia como se tivesse neblina na lente dos meus óculos. Sofria de transtorno bipolar desde a infância, mas não sabia. Sempre achei que havia alguma coisa estranha comigo, que me atrapalhava desde muito pequeno. Até que aos 17 anos tive um episódio de pânico ao sair para trabalhar. Meu estado foi piorando e aos 19 anos tentei o suicídio por duas vezes. Foi o ápice de uma depressão muito grande, tão grande que não saia da cama.

Na época acreditava que psiquiatra era coisa de doido. Então “sobrevivi” desde jeito, entre altos e baixos, até os 30 anos, quando comecei a me sentir pior de novo. O vazio existencial era tamanho que não sabia o que fazer. Achava que a única maneira de acabar com aquilo era terminando com a minha vida. Não via outro caminho. Não apenas pelos sintomas, mas porque os relacionamentos se tornaram muito difíceis no geral. Sabe por que? Porque ninguém conseguia entender meu comportamento. Nem eu. Quem tem transtorno bipolar se sente superior. Eu me considerava um super homem, que podia enfrentar tudo e todos. Tinha dificuldade de praticar a tolerância. Minha palavra era única, a dos outros pouco importava.

“Falta de informação, tabus, preconceitos, estigmas tudo isso leva para o fundo do poço”

Foi então que meu irmão me pegou pelo braço e me levou ao psiquiatra, quando recebi o diagnóstico de transtorno bipolar. Há dois tipos. O tipo um, que é o meu caso, é marcado por episódios de irritabilidade e intempestividade. Já o tipo dois causa estados mais depressivos e alterações de humor.

Com o diagnóstico tudo mudou. Entendi que esse transtorno surge em razão de uma disfunção neuroquímica, mas tem tratamento. Comecei a tomar medicamentos, com orientação do psiquiatra e a fazer terapia. Considero, a partir daí, o início do meu renascimento. Hoje, aos 46 anos, estudo psicologia, sou voluntário da ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) e gosto muito de viver ao lado da minha esposa e filha. Sou feliz”.

Ricardo Esteves de Oliveira, São Vicente (SP).

Imagem de uma onde em tons de amarelo.