Obras inspiradas em pessoas reais

Quadro de uma mulher de meia idade, grisalha, com girassóis em sua volta e ao fundo um mar.

"Briguei muito com a minha depressão. Não queria aderir ao tratamento"

“Tenho histórico familiar de pessoas com transtorno bipolar e depressão e não escapei dessa genética, que tem grande fator de prevalência entre os casos. Porém, só aos 25 anos descobri que se passava também comigo. Resisti muito. Antes de procurar o psiquiatra falei para minha família ‘Meu caso não é tão sério!’. Mas era sério sim. É sério.

Tenho transtorno bipolar tipo 2 e a maior consequência é a depressão. Mas, mesmo sabendo do diagnóstico, levei um tempo para aderir ao tratamento porque sabia que era para o resto da vida. Briguei muito com a minha depressão. Interrompi o tratamento várias vezes. Melhorava e parava. Dizia: ‘Agora não preciso mais’. Vivia tendo altos e baixos. É isso que a maioria faz. Abandona porque pensa que está curada. Mas tudo volta e de forma mais intensa.

Só estabilizei quando resolvi levar o tratamento a sério. Sabe quando foi isso? Vinte e cinco anos depois do diagnóstico. E essa é a pior coisa que eu podia ter feito. Ficava deprimida, de cama, às vezes dois a três meses e não conseguia seguir uma carreira. O motivo? Eventos estressantes impactam severamente quem tem o diagnóstico. São o que chamamos de ‘gatilhos’ e eu, para passar por eles, precisava estar rodeada de uma fortaleza chamada medicamentos e terapia.

“Interrompi o tratamento várias vezes. Melhorava e parava. Dizia: ‘Agora não preciso mais’. Vivia tendo altos e baixos. É isso que a maioria faz”

Um destes eventos ocorreu em 2003. Era voluntária no Hospital do Câncer e tive uma depressão muito forte em função deste trabalho. Cheguei a pensar em suicídio, embora tivesse meus filhos e uma família bem estruturada. Perdi mais de dez quilos. Me cansei de viver dessa forma, de sofrer. Não era fácil ser a mãe que eu era, sempre deitada, sem energia. A família de um modo geral sofre muito. Quando apareceu a minha depressão mesmo, pra valer, os meus filhos eram adolescentes e achavam que era frescura. Diziam: ‘Puxa mãe, você pode reagir sozinha’. Mas como eu reagiria sozinha?

A partir da adesão ao tratamento tudo mudou. Procurei a ABRATA (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos) e comecei a frequentar os grupos de apoio. Foi formidável poder falar e ouvir também. Tive uma sensação de pertencimento. Não era só eu que me sentia assim. Aprendi que tenho que cuidar da minha saúde mental como cuido da física. Aprendi que a vida é maravilhosa e vale a pena ser vivida”.

Iole Maria Lorenzo Gassibe Lorezon, advogada, São Paulo.

Imagem de uma onde em tons de amarelo.